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21/08/2009 - 02:54

Pizza Indigesta

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Após a paternidade (ou maternidade) a pessoa certamente começa a pensar diferentemente sobre vários assuntos.  Ao mesmo tempo que diversos conceitos são revistos e repensados, também certas convicções ganham ratificações superlativas; principalmente se relacionadas às questões morais e éticas que a pessoa deseja transmitir à prole.  Digo isso pois, anteontem à noite, depois de saber de mais uma “pizzada” geral de nossa política, fiquei pensando no país e nos valores com os quais minha filha Isabela terá que conviver no futuro.
Não é mais possível que sejamos tão impotentes perante a tamanho desrespeito com nossos indivíduos, nossas famílias, nossos amigos e com nossa sociedade.  Precisamos, para nossa sobrevivência como cidadãos decentes, começar a não mais permitir esses indesejáveis abusos e desmandos.
Para a minha pequena Isabela, tento passar a compreensão de que o sujeito deve  sempre prezar pela honestidade, integridade, respeito e paz de espírito – individual e coletivamente.  Mas o que dizer quando os exemplos que vem de nossos políticos e de nossa conivente participação (ou não participação) social revelam que é absolutamente normal e corriqueiro ser desonesto e corrupto?   Recuso-me a ensinar o ideal do “cada um por si” ou os mandamentos da lei da vantagem.   Vivemos em sociedade e precisamos uns dos outros para quase tudo nesse mundo.  De que adianta ver o Brasil acelerando, várias pessoas caindo do barco, enquanto uns poucos “espertos” tomam champagne e comem caviar despreocupadamente na cabine do comandante (iguarias essas bancadas por aqueles que somem abandonados na água!)?  Por quê o restante dos passageiros não se revolta?  Assim, tornam-se tão culpados pelos afogamentos quanto a corja da cabine.   Não temos mais espaço para engolir sapos.  Estamos com os sapos saindo pelas narinas!  O jeito é começar a vomitar alguns desses anfíbios e não permitir mais que se proliferem.    E temos armas para isso.  Nos dias atuais, as chances para expor nossas idéias e indignações são excessivamentes maiores que há alguns anos.  Um bom exemplo é o caso do músico Dave Carroll (que postei aqui anteriormente).  Ele teve seu violão quebrado durante um voo de uma companhia aérea, tentou o ressarcimento, não conseguiu, então decidiu compor uma música contando o episódio.  Hoje a companhia tenta desesperadamente tirar o vídeo do Youtube que já conta com mais de 5 milhões de visitas!  É nosso dever usar blogs, twitters, vídeos, podcasts e emails para devolver o mesmo constrangimento que esses “administradores” públicos de meia tigela nos causam quando esfregam em nossas caras tamanha impunidade.  Isso sem contar o que se pode realizar com uma legítima mobilização pública nas ruas de nossos bairros e cidades.   Projetos como os do grupo RIR PARA NÃO CHORAR tem buscado uma maior conscientização sobre esses assuntos.  Só não podemos mais aceitar essa pizza indigesta com a nossa paciência rotineira!  Não serve mais a desculpa de que somos poucos para mudar de baixo para cima; de que não adianta fazer nada porque desde sempre foi assim.  Muito pelo contrário!  Somos 191 milhões!!!  Acho que dá para impor muito respeito com tudo isso de gente cobrando respeito.
Chega de depositar nossas esperanças e responsabilidades em orgãos que, sabemos, geralmente não agem em nosso favor.    Chega de achar que o dinheiro de nossos impostos é do Governo.  Esse dinheiro É NOSSO!!!!  O Governo só deveria administrá-lo em nosso nome e em nosso próprio benefício.   Como no caso de quem paga condomínio em suas residências.  Não se paga a contribuição predial sem exigir que o dinheiro seja efetivamente usado para criar melhorias e vantagens coletivas nas áreas comuns.  Quando algo de errado acontece nesse âmbito residencial, logo se convoca uma reunião para cobrar um equilíbrio do valor gasto com o benefício gerado.   Por quê não agimos da mesma forma com nosso país?  A nação é nossa residência; e o condomíno não é nem um pouco barato (somos um dos países com maior carga tributária do planeta).  Cadê as melhorias das áreas comuns?  Cadê a boa educação pública para nossos filhos?  Onde está o atendimento decente e cuidadoso de nossa rede de saúde?  E a segurança de nossas famílias e de nossos bens esforçadamente conquistados?  Os síndicos não estão prestando as contas e nós estamos deixando por isso mesmo. NÃO!!!  Trabalhamos em média 4 meses por ano não para PAGAR ao governo, mas sim para garantir todas essas “regalias” a todos os cidadão brasileiros.  Não devemos mais aceitar caladinhos que nosso dinheiro seja desviado para alguma conta pessoal no exterior ou para bancar castelos megalomaníacos e de gosto duvidoso.
E isso nos leva também a cobrar que um político que seja pego em qualquer tipo de crime contra a sociedade, nunca mais possa assumir qualquer outro cargo público de representação.  É simplesmente um absurdo ver que, nomes com a reputação comprovadamente manchada, muitas vezes são impedidos de seguir em seus cargos por desejo popular e em poucos anos estão ocupando cargos de igual ou maior influência.  Qual a lógica disso?  Em qualquer empresa ou domicílio, quando um funcionário é pego desfalcando ou lesando de forma aguda e grave quem quer que seja, esse funcionário é subitamente afastado e jamais, como pede o bom senso, será recontratado para outro cargo na mesma empresa.  Na política não existe esse bom senso.  Sabe-se que o brasileiro somente agora conseguiu ter acesso a uma melhor informação e ainda assim, a inclusão cultural é lenta e não abraça a todos.  Dessa forma alguns políticos se aproveitam de nosso despreparo e se reelegem apesar de merecerem o esquecimento eterno.  E isso independe de ideologias partidárias (pois imagino que hoje todos eles tenham o traseiro sujo).  Quem perde é a democracia.  Políticos sagazes e dissimulados diante de uma população passiva e alienada.   Outro dia um amigo me contava que o principal Jornal da televisão brasileira encontra-se estrategicamente posicionado entre as duas mais bem sucedidas novelas do horário nobre justamente para alavancar a audiência do noticiário.  Até aí tudo normal e inteligente.  Só que ele me disse que há alguns anos, as empresas de fornecimento de água fizeram um levantamento indicando que durante a exibição das notícias o consumo de água nas residências disparava.  Isso mostrou que, apesar da grande audiência (por conta dos televisores ligados nas salas), muita gente aproveitava o tempo do jornal para tomar banho! Ou seja, muita vezes preferimos encarar a ficção confortante a descobrir sobre nossa realidade desvairada.   Não sei até onde esse relato é comprovado e verdadeiro, mas certamente precisamos parar de achar que nossos problemas como nação só duram até o começo do próximo capítulo da novela.  Tomamos um banho para fingir que nada acontece e depois nos entregamos alegre e calmamente aos problemas que pertencem exclusivamente aos personagens fictícios do folhetim.  A “parada” aqui é bem real e já se esgotou o tempo de engolir a seco.
Peço desculpas pelo texto longo, mas não consigo mais segurar a indignação com essas absolvições descabidas, acordos partidários incoerentes e processos que só servem para ganhar tempo até que um próximo escândalo assente a poeira do anterior.  Não concordo como cidadão e pai que deixemos as coisas como estão, esperando que, quem sabe, nossos filhos resolvam no futuro o que temos preguiça de resolver agora.
Música na alma de todos, J.O.

Autor: - Categoria(s): Música Tags: ,
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